Agressividade na infância deve ser valorizada, diz psicanalista

“A criança que nunca fez uma birra ou nunca mostrou resistência a imposição de um limite, deve nos preocupar mais”, diz a psicanalista Teresa Carvalho. 

Será que emoções historicamente consideradas negativas, como a raiva e o ódio, no fundo não são apenas expressões inevitáveis do ser humano?

por Camilla Hoshino

Birras, gritos, chutes, mordidas e outras atitudes comumente relacionadas à agressividade na infância podem deixar pais, mães e cuidadores de cabelo em pé. Mais do que isso, de acordo com a intensidade e ocasião em que se apresentam, podem ser considerados comportamentos negativos a ponto de caracterizarem crianças como “problemáticas” ou “preocupantes”.

Observando esse repertório de maneiras de se expressar na infância, que podem se tornar motivo de queixas e repreensão por parte dos adultos, fomos investigar o que a psicanálise compreende por agressividade, afinal.

Uma parte indissociável do indivíduo

O pediatra e psicanalista inglês Donald Woods Winnicott é um dos principais marcos teóricos utilizados por profissionais no estudo do tema. De acordo com ele, a agressividade representa uma parte constituinte do sujeito. Para o especialista, ela faz parte do rol de recursos básicos acessados pelos indivíduos, desde muito pequenos, para sobreviver e se desenvolver.

“Há uma agressividade necessária para a convivência e conquista do mundo. De certo modo, em algumas situações, ela é sinônimo de ação, portanto, necessária para a vida”, afirma a psicanalista e mestre em Psicologia da Educação pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), Maria Teresa Venceslau de Carvalho.

Um exemplo disso pode ser percebido ainda na vida intra-uterina, quando o feto “chuta” a barriga mãe. Ou após o nascimento, quando o bebê suga com força o seio materno*. (*Essas e outras referências podem ser encontradas no livro “Psicanálise e Educação – Questões do Cotidiano”, da autora Renate Meyer Sanches, publicado pela editora Escuta, em 2002)

É essencial reconhecer que cada criança possui sua individualidade, e considerar as relações que são estabelecidas no contexto de cada uma. Essa é a opinião da professora doutora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Infância e Educação Infantil (NEPEI), Iza Rodrigues da Luz.

Ela chama atenção para as emoções consideradas negativas como a raiva e o ódio, mas que no fundo não passam de sentimentos humanos como tantos outros. “É preciso evitar o tratamento moralista”, sugere, e ajudar as crianças a compreender que não há nada de errado em sentir raiva, assim como nós mesmos precisamos apender a expressar todos os sentimentos.

Comunicação e acolhimento
Mesmo sendo uma alternativa comum de seu uso, não se pode dizer que a agressividade na infância é sinônimo de ataque ou destruição. Ela se apresenta como algo bem mais amplo. Isto é, quando uma criança reage à frustração, por exemplo, por não receber aquilo que deseja ou necessita, vários mecanismos podem ser acionados por ela para lidar com a situação.

Conforme apresentam os psicanalistas abordados, que entendem o “potencial de agressividade” como algo inerente ao ser humano, as crianças que apresentam esse tipo de comportamento geralmente estão tentando dizer algo e pedindo uma intervenção do ambiente a seu redor.

Porém, pelo fato de “incomodar”, elas são mais percebidas negativamente do que as crianças que se adaptam excessivamente a tudo.

Leia a matéria completa em:  https://lunetas.com.br/agressividade-infancia/

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