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Escuta ativa e empatia: como criar pontes de diálogo seguro com os filhos durante a adolescência?
A adolescência costuma mudar a dinâmica dentro de casa. De repente, aquela criança que contava todos os detalhes do dia pode começar a responder apenas “foi tudo bem”. As conversas ficam mais curtas, a necessidade de privacidade aumenta e, muitas vezes, os pais sentem que já não sabem exatamente o que está acontecendo com o filho.
No entanto, esse afastamento não significa que o adolescente deixou de precisar dos pais. Pelo contrário. Em uma fase marcada por mudanças, descobertas e construção de identidade, ter adultos de confiança por perto continua sendo fundamental. A diferença está na forma como essa presença acontece.
Mais do que perguntar, é preciso aprender a escutar. Mais do que oferecer respostas, é necessário criar espaço para que o adolescente consiga elaborar aquilo que sente. E, sobretudo, mais do que tentar resolver tudo imediatamente, os pais precisam mostrar que estão disponíveis para ouvir sem transformar cada conversa em uma bronca, uma comparação ou uma lição.
É nesse contexto que a escuta ativa e a empatia ganham importância.
Durante o Setembro Amarelo, essa reflexão se torna ainda mais necessária. A campanha de prevenção ao suicídio ajuda a colocar a saúde mental em pauta e reforça a importância de romper o silêncio em torno do sofrimento emocional. Entretanto, falar sobre prevenção não significa esperar uma situação de crise para começar a conversar. O diálogo precisa ser construído muito antes.
Adolescência: quando ouvir se torna ainda mais importante
A adolescência é um período de construção de identidade e busca por autonomia. O jovem começa a questionar ideias, experimentar novas formas de se relacionar e construir sua própria maneira de enxergar o mundo. Por isso, é natural que ele queira mais espaço. Entretanto, autonomia não significa ausência de vínculo.
O adolescente ainda precisa saber que existe alguém para quem pode recorrer quando algo der errado. Precisa sentir que pode compartilhar uma dúvida sem receber imediatamente uma crítica. Precisa, principalmente, ter a segurança de que será levado a sério.
O psicólogo Carl Rogers, um dos principais nomes da psicologia humanista, dedicou grande parte de sua obra à importância da escuta e da compreensão empática. Para ele, ouvir verdadeiramente significa tentar compreender a experiência do outro a partir do seu próprio ponto de vista, sem transformá-la imediatamente em julgamento.
Rogers resume a força dessa escuta ao afirmar que “ser ouvido por alguém que compreende” pode ajudar a pessoa a ouvir a si mesma com mais clareza. Essa ideia é especialmente importante na adolescência. Afinal, muitas vezes, o jovem ainda está tentando descobrir o que sente. Portanto, antes de esperar respostas prontas, os adultos podem ajudá-lo simplesmente oferecendo espaço para que ele consiga falar.
Na adolescência, escutar não é apenas ouvir
Ouvir significa perceber o que foi dito. Escutar exige presença, atenção e disposição para compreender. Quando um adolescente chega em casa irritado e responde “não aconteceu nada”, por exemplo, a conversa pode terminar ali. Entretanto, também pode começar de outra maneira.
Em vez de insistir: “Você está estranho. O que aconteceu?”
os pais podem tentar: “Percebi que você não parece muito bem hoje. Se quiser conversar, estou aqui.”
A diferença está na ausência de pressão. O adolescente continua tendo espaço para escolher quando falar, mas também recebe uma mensagem clara: “Eu percebo você e estou disponível.”
Carl Rogers também chamava atenção para o fato de que muitas pessoas acreditam que escutam, quando, na realidade, estão apenas esperando sua vez de falar. A escuta empática exige o contrário: diminuir, por alguns instantes, a necessidade de responder para realmente compreender.
Por isso, durante uma conversa, vale guardar o celular, olhar para o filho e evitar preparar mentalmente a resposta enquanto ele ainda está falando. Deixe o espaço necessário para que ele se sinta apoiado.
Empatia não é concordar com tudo que o adolescência faz e diz
Outro ponto importante é entender que empatia não significa permissividade. Compreender o que um adolescente está sentindo não significa concordar com todas as suas escolhas. Da mesma forma, acolher uma emoção não significa permitir qualquer comportamento.
O psicólogo Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não Violenta, define empatia como “uma compreensão respeitosa do que os outros estão vivenciando”. Essa definição ajuda a separar duas coisas que muitas vezes se confundem.
Um pai pode dizer: “Eu entendo que você esteja muito bravo.” E, ao mesmo tempo: “Mas não é aceitável falar dessa maneira com sua mãe/irmã/amiga.”
As duas frases podem coexistir, a primeira reconhece o sentimento. A segunda estabelece um limite. Assim, o adolescente aprende que suas emoções são legítimas, mas que suas atitudes também têm consequências.
Antes de aconselhar um adolescência, tente compreender
Quando um filho conta um problema, é comum que os pais queiram solucionar rapidamente. Se ele reclama de um amigo, queremos explicar o que deveria fazer, se enfrenta uma dificuldade na escola, queremos mostrar como resolver ou está triste, queremos fazê-lo ficar bem imediatamente.
Esse impulso nasce do cuidado. No entanto, nem sempre é o que o adolescente precisa naquele momento. Marshall Rosenberg chama atenção justamente para essa tendência de oferecer conselhos ou explicações quando a outra pessoa talvez precise primeiro de empatia.
Por isso, uma pergunta simples pode mudar a conversa: “Você quer que eu te ajude a encontrar uma solução ou só quer que eu te escute?”. Essa pergunta também ensina autonomia, o adolescente percebe que seus sentimentos merecem atenção e, ao mesmo tempo, começa a identificar aquilo de que precisa.
Quando o assunto é saúde mental
Durante o Setembro Amarelo, é importante lembrar que nem toda tristeza, irritação ou mudança de comportamento significa necessariamente um problema de saúde mental. A adolescência envolve oscilações emocionais e diferentes formas de expressão. Entretanto, mudanças persistentes ou sinais de sofrimento intenso merecem atenção.
Nesse momento, os pais não precisam assumir o papel de psicólogos. Pelo contrário: reconhecer os próprios limites também faz parte do cuidado. Se houver uma preocupação com o bem-estar do adolescente, buscar orientação profissional é uma atitude de responsabilidade.
Além disso, conversar diretamente sobre sofrimento emocional ou pensamentos relacionados à morte não deve ser tratado como um tabu. O mais importante é conduzir a conversa com calma, acolhimento e sem julgamento.
A escola também precisa ser um espaço de escuta
A relação de confiança não acontece apenas dentro de casa. O adolescente passa uma parte significativa da vida na escola. Por isso, professores, orientadores e equipes pedagógicas também podem contribuir para a construção de um ambiente no qual ele se sinta respeitado, pertencente e seguro para pedir ajuda.
No Axis, essa visão faz parte de uma compreensão mais ampla da educação. A escola não acompanha apenas o desempenho acadêmico. Ela também precisa conhecer o aluno, perceber suas características, reconhecer suas dificuldades e acompanhar seu desenvolvimento de maneira próxima.
Isso significa observar mudanças, conversar quando necessário, aproximar escola e família e construir estratégias que considerem cada trajetória. Afinal, o acompanhamento individualizado não acontece apenas quando existe uma dificuldade pedagógica. Ele também envolve conhecer o estudante como pessoa.
Essa proximidade faz parte daquilo que o Axis entende como uma educação em que aprender e estar bem caminham juntos.
Criar pontes, não interrogatórios
No fim, talvez a principal mudança esteja na maneira como encaramos as conversas com nossos filhos. Não precisamos transformar cada diálogo em uma investigação. Precisamos construir pontes feitas de presença, confiança, respeito e disponibilidade.
Carl Rogers acreditava que uma escuta verdadeiramente empática pode se tornar uma força de transformação. Para ele, quando alguém é compreendido sem ser imediatamente julgado, encontra melhores condições para compreender a si mesmo. Essa ideia vale para a relação entre pais e filhos.
O adolescente não precisa encontrar nos adultos alguém que tenha todas as respostas. Ele precisa encontrar alguém disposto a permanecer ao seu lado enquanto procura algumas delas. Por isso, durante o Setembro Amarelo — e durante todos os outros meses do ano, vale lembrar: escutar também é cuidar.
Uma pergunta feita com calma pode abrir uma conversa e uma resposta sem julgamento pode fortalecer um vínculo. E uma relação construída com empatia pode fazer com que, mesmo diante de momentos difíceis, o adolescente saiba exatamente onde encontrar uma porta aberta.